Indústria 'empurra' novas drogas, sem garantir que são melhores que antigas

Interesses comerciais acabam muitas vezes atrapalhando tratamentos.
Opinião é de psquiatra americano, em artigo no jornal "New York Times".
Recentemente, um dos meus residentes me contou sobre uma paciente com transtorno bipolar, cujo psiquiatra havia prescrito um coquetel exótico de drogas - um sedativo, um novo estabilizante de humor e a medicação anti-psicótica mais recente.
Fiquei intrigado - não pelo caso em si, que o residente descreveu como depressão maníaca típica, mas pelo que foi deixado de fora. A paciente, ao que parece, nunca recebeu lítio, o mais efetivo tratamento único para transtorno bipolar.
Quando me encontrei com meus residentes no seminário semanal, decidi fazer um grande caso dessa história. "O que vocês acham do tratamento da paciente?", perguntei a eles.
Houve um longo silêncio. "O que há de errado com ele?", indagou um residente. Finalmente, outro residente disse acreditar que a resposta certa era lítio, mas que os tratamentos mais novos são mais populares.
Então, eu percebi. Não importa se o lítio mostrou sua segurança e eficácia durante décadas de uso; agora, ele é passado - foi ofuscado por todas essas novas e interessantes drogas famosas.
Valor patenteado
Sais de lítio têm sido usado para contrapor o transtorno bipolar desde a década de 1950, quando foi descoberto que eles reduziam enormemente a intensidade e a frequência das variações de humor, em cerca de 70% dos pacientes com o transtorno. Apesar de o lítio ter de ser tomado com cuidado - ele é terapêutico num leque pequeno de níveis sanguíneos, e superdosagens podem ser tóxicas -, ele também é a única droga psicotrópica que já provou ter efeitos anti-suicidas específicos. Isso tem um valor especial, dado o alto risco de suicídio associado a distúrbios de humor.
No entanto, o lítio é barato e não é patenteado, então as empresas farmacêuticas têm pouco interesse nele. Em vez disso, elas produziram uma nova geração de estabilizantes do humor, alguns mais toleráveis que o lítio, mas nenhum deles mais eficaz.
O lítio não é a única droga eficaz, mas pouco interessante, a ser deixada de lado. Novos tratamentos médicos são um pouco como aquela crença de que tudo que é novidade atrai mais: eles têm um apelo difícil de resistir.
Médicos e pacientes são inundados com campanhas de marketing de empresas farmacêuticas. As empresas gostam de dizer que estão interessadas em educar o público e os médicos sobre várias doenças. Mas eu ainda não conheço nenhum paciente que aprendeu qualquer coisa informativa sobre qualquer doença lendo um anúncio.
Em vez disso, vi muitos pacientes chegando ao meu consultório, ansiosos para receber o antidepressivo mais moderno, ou o estabilizante de humor mais novo, que lhes prometia tranquilidade em comerciais de TV.
O preço da confiança
Não é de se admirar. O gasto das empresas farmacêuticas com publicidade dirigida aos consumidores disparou 330%, de 1996 a 2005, segundo um estudo publicado no "The New England Journal of Medicine", em 2007.
Ao contrário dos consumidores, os médicos continuam a acreditar que estão imunes à influência da indústria farmacêutica, apesar de fortes evidências indicando o oposto. Estudos demonstraram que médicos com laços com a indústria têm mais tendência a prescrever uma droga de marca, em vez da versão genérica, do que médicos sem relação com as empresas farmacêuticas.
No entanto, isso não quer dizer que toda influência seja ruim. Se uma nova droga prova ser mais segura e eficaz que as antecessoras, é claro que deve ser prescrita para os pacientes capazes de se beneficiarem dela.
Porém, muito frequentemente, a nova panaceia não é nada mais do que uma droga "a mais" - uma mínima modificação feita numa droga já disponível, oferecendo pouca ou nenhuma vantagem em termos de eficácia e segurança.
Não faz muito tempo, uma paciente me contou ter tido uma depressão resistente ao tratamento. Ela não respondia a vários testes com cinco novos antidepressivos, incluindo dois do mesmo tipo.
Telefonei para seu psiquiatra, um jovem e inteligente médico, conhecido meu, para perguntar se a paciente já havia recebido algum dos antidepressivos mais antigos, como um tricíclico ou IMAO (inibidor da monoamina oxidase). Ele tinha pouca experiência com essas drogas mais antigas, porém altamente eficazes, então não cogitou usá-las.
Sugeri, então, que ela tomasse um IMAO. Depois de seis semanas, ela melhorou consideravelmente.
É bem verdade que os novos antidepressivos são geralmente mais seguros e mais toleráveis que os antigos, o que é uma vantagem importante, mas não são mais eficazes que as drogas mais antigas.
Meu jovem colega havia sido treinado recentemente e tinha um conhecimento tremendo sobre as últimas pesquisas e as drogas mais recentes. No entanto, seu treinamento não lhe ofereceu amplo contexto onde inserir todo esse novo desenvolvimento.
Especificamente, como essas novas drogas se comparam às mais antigas? Não sabemos sobre isso o suficiente. E isso é algo que as empresas farmacêuticas não têm interesse em descobrir. Para obter a aprovação da FDA (Food and Drug Administration), uma nova droga tem de superar um placebo, não uma droga já estabelecida, em dois testes clínicos.
Entretanto, pacientes e médicos precisam saber não só se uma nova droga supera um placebo, mas se ela é um avanço real sobre o que já está no mercado. Por isso, precisamos de testes por igual, comparando tratamentos-padrão e novos tratamentos.
É exatamente esse o objetivo da pesquisa de eficácia comparativa, uma iniciativa ambiciosa do presidente Barack Obama, a fim de determinar quais tratamentos realmente funcionam. Como você pode esperar, essa ideia provocou fortes resistências por parte dos fabricantes das drogas e dispositivos médicos, que temem que seus novos e lindos produtos possam não ser melhores que os atuais.
Não sei em relação a você, mas eu optaria por uma droga mais antiga com um histórico conhecido de eficácia e segurança, em vez de uma droga novata e custosa sem nenhum benefício adicional.
Fonte: http://g1.globo.com/Noticias/Ciencia/0,,MUL1167210-5603,00-INDUSTRIA+EMPURRA+NOVAS+DROGAS+SEM+GARANTIR+QUE+SAO+MELHORES+QUE+ANTIGAS.html