Especialista defende atenção à educação infantil

Pôr mais crianças na escola, como tem feito o Brasil, é bom. Cuidar da melhoria da qualidade do ensino é ainda melhor. Mas essas duas iniciativas, por mais bem executadas que sejam, não chegarão a fazer muita diferença se não for tomado um cuidado extra: investir também nas crianças de zero a 3 anos de idade, a chamada primeira infância.

Esse foi o recado dado ontem ao governo do Brasil, no Rio de Janeiro, por um dos maiores especialistas em efeitos da educação na vida econômica dos países, James Heckman, prêmio Nobel de Economia em 2000. Ele abriu o seminário Educação na Primeira Infância, que terminará hoje, na Fundação Getulio Vargas, advertindo que já aos 3 anos de idade começa a aumentar a distância - em termos de melhoria nas condições de vida - entre as pessoas cujos pais tratam de estimulá-las, lendo para elas, engajando-as em jogos e conversas, e aquelas que são negligenciadas por eles.

- É a partir daí que começa a surgir a grande divisão, fazendo com que a desigualdade se perpetue nas gerações posteriores - disse ele.

Heckman, professor da Universidade de Chicago e que há pouco mais de 40 anos faz pesquisas no setor, disse que muita gente ainda hoje acredita que as habilidades de uma pessoa são herdadas ao nascer. Ele desmentiu esse mito exibindo alguns dos resultados de seus estudos iniciados nos anos 60, por meio de um programa de educação com crianças e que envolveu também os seus pais.

O mais impactante deles é o custo-benefício da iniciativa: cada dólar investido no programa deu um retorno de nove dólares para a sociedade.

- Um programa de primeira infância de qualidade para a população carente é uma condição necessária para avançarmos em direção a uma sociedade mais educada, igualitária e, sobretudo, menos violenta - disse Heckman.

" Em vez de consertar problemas, é mais negócio a gente evitá-los logo cedo (James Keckman) "

Críticas ao sistema do Brasil

Segundo ele, o investimento na primeira infância - zelando pela saúde das crianças e educando os pais a serem pais de verdade - é o meio mais eficiente para garantir êxito na escola, reduzir a criminalidade e os gastos com medidas socioeducativas para remediar deficiências na juventude e na vida adulta.

O prêmio Nobel comentou que o Brasil "tem feito um enorme progresso nos últimos 20 anos, promovendo educação e reduzindo a desigualdade". Mas, em seguida, lembrou que a pobreza ainda é muito aguda no país. E afirmou que, a menos que se passe a dar mais atenção à primeira infância, o futuro será incerto:

- Do jeito que as coisas estão, vocês estão criando uma situação que tornará muito difícil que a próxima geração de brasileiros alcance o sucesso. A política do Brasil, e de outros países, focaliza demais nos adultos e em colocar crianças na escola, e não reconhece a importante base que começa antes da escola. Em vez de consertar problemas, é mais negócio a gente evitá-los logo cedo.

Heckman sugeriu, ainda, que o Brasil passe a encarar de forma distinta os notórios desequilíbrios socioeconômicos da população:

- Há uma outra causa para a desigualdade no Brasil, além da distribuição de renda: é o seu sistema de educação - disse ele, lamentando que o ministro do setor, Fernando Haddad, já houvesse deixado o recinto do seminário quando ele fazia a sua palestra.

- Pena que o ministro da Educação já tenha ido, e que o da Justiça não tenha vindo, com alguns outros, pois este é um assunto que vale a pena discutir amplamente - disse Heckman.

Ao responder sobre qual deveria ser a prioridade do poder público, ao investir em educação, ele não titubeou: a primeira infância.

- Se as crianças que estão chegando à escola já estão preparadas, e com maior motivação, a performance do sistema de ensino no geral será muito mais efetiva - afirmou.

Ao longo de uma apresentação que durou 82 minutos, o professor americano desconstruiu vários mitos - como o de que é importante investir nas escolas para que elas façam com que os estudantes melhorem o seu QI (quociente de inteligência):

- Quando se pensa em ensino, pensa-se basicamente sobre QI, em como desenvolvê-lo, e não em se criar caráter, em promover motivação, cidadania, em propiciar que as pessoas se socializem com outras, e se engajem. Enfim, em coisas que têm um papel muito maior em nossa vida. Isso é negligenciado aqui no Brasil e em toda parte. É um problema que os responsáveis pela criação de políticas não encara - afirmou. - Esses testes que fazem nas escolas servem para muito pouco. O que falta são políticas que criem motivação.

Heckman insistiu que os governos não precisam gastar mais dinheiro e, sim, gastar com mais eficiência os recursos disponíveis.

Fonte:http://oglobo.globo.com