Adolescente aprende japonês sozinho


O adolescente Jordan Barbosa Fernandes, 15 anos, sempre morou no Eldorado, em Diadema, e sempre estudou na Escola Estadual Miguel Reali, no mesmo bairro. Todos os dias, ele, que é apaixonado por Matemática e detesta futebol, anda 20 minutos pelas ruas do bairro para chegar ao colégio. Neste ano, ele vai cursar o 1° ano do Ensino Médio, no período noturno. É o único estudante superdotado da rede estadual da cidade.

Jordan é o responsável pelos cuidados de Letícia, 13, e Ligia, 8, e do esperto Jonathan, 5, enquanto a mãe - que é manicure e atualmente trabalha como recepcionista - sai para o serviço. O pai faz bico e não mora com eles.

A família reside em uma casa alugada de dois quartos e cozinha; no quintal há outras três residências. O estudante arruma e limpa os cômodos diariamente, depois leva e busca os irmãos menores na escola e dá reforço escolar para eles, quando necessário.

Jordan ainda encontra tempo para desenhar mangás e assistir a desenhos japoneses para aprender a falar e escrever algumas palavras neste idioma, além de estudar lendo livros de Matemática, Física, Química e Astronomia recebidos na escola. "Inglês eu não gosto, mas japonês é muito legal, estou aprendendo sozinho, meu amigo me emprestou umas revistas e é assim que me viro", comenta.

A irmã Letícia acha o gosto do irmão um pouco diferente. "Tem dia que ele fica em frente à televisão assistindo com legenda, com aquelas letras estranhas. Aí eu falo para ele parar com isso que é coisa de doido", brinca a garota.

O jovem é pequeno e simpático e sonha em trabalhar "com computadores", mas ainda não tem o equipamento e nem acesso à internet em casa. "É meu sonho mexer com computadores ou ser pesquisador de química e física" conta Jordan. Ele desistiu de concorrer a uma vaga no Ensino Técnico neste ano porque os irmãos não tinham com quem ficar. "Se eu fosse estudar, quem cuidaria deles?", questiona.

Segundo Letícia, na escola todos os professores gostam dele. "Nem perguntam o meu nome. Mas sim se sou irmã do Jordan. Ele é muito inteligente e me ajuda sempre que preciso."

Jordan sempre teve boletins recheados de notas máximas. Apenas em História e Geografia precisa estudar para tirar uma boa avaliação. "Não consigo entender as coisas que o professores falam. Aí chego em casa e pego os livros para entender melhor. Mas nas outras matérias aprendo superrápido e não vejo problema", lembra.

Inconformados e com inveja, os colegas de classe chamam Jordan de nerd, mas ele não liga. "Não tenho culpa de ser assim. Gosto de estudar e de fazer as lições e trabalhos bem feitos", comenta.

''É como se não precisassem se esforçar para aprender''

Para a professora de Pedagogia Presencial Denise D''Aurea Tardeli, da Universidade Metodista de São Paulo, de São Bernardo, os alunos superdotados têm os seus maiores inimigos dentro de casa. Os pais são os grandes vilões, "talvez para compensar o que não tiveram ou, de alguma forma, se verem ‘superiores'' a outras pessoas", analisa a especialista. Confira a abaixo a entrevista dela.

DIÁRIO - O que é um superdotado?

DENISE D''AUREA TARDELI - Esta nomenclatura não é boa, mas foi o que restou dos estudos sobre inteligência do século 19. É um sujeito que apresenta certas habilidades para algumas áreas, precocemente desenvolvidas.

DIÁRIO - Qual é o método para descobrir alunos superdotados?

DENISE - Hoje em dia não existe um método propriamente dito. Antes faziam teste de QI porque a concepção de inteligência era outra. Hoje, observando o desempenho da criança desde cedo, pode-se verificar se ela apresenta facilidade exagerada para certas áreas que a diferencia de crianças da mesma idade. Ela faz coisas e sabe coisas que só com muito estudo ou muito mais velha saberia.

DIÁRIO - Esses alunos podem ser considerados gênios?

DENISE - Sim. Pode ser, naquilo que fazem bem. O conceito de gênio está voltado para algo mais específico, como a área de Exatas, Ciências Físicas, ou criação. Podemos dizer que John Nasch era gênio da Matemática, ou que Michelangelo era gênio nas Artes. É algo que uma pessoa faz com muita facilidade, que flui espontaneamente e de forma extremamente competente. Este conceito acabou ficando ligado a atividades de laboratório ou de criação artística.

DIÁRIO - Quais são as maiores características que podemos encontrar em um aluno acima da média?

DENISE - Facilidade extrema para algumas coisas. É como se não precisassem se esforçar para aprender. O aprendizado é muito consistente

DIÁRIO - Eles têm dificuldades de relacionamento com outras pessoas?

DENISE - Esse é o problema. Geralmente os alunos que se dedicam a alguma área, ou algumas áreas do conhecimento, por sua facilidade, acabam ficando distanciados do cotidiano. Porque esta dedicação toma tempo e motivação. Há um filme muito bom, dirigido e estrelado pela Jodie Foster, Mentes Que Brilham, que mostra justamente isto. Ela era uma mãe afetiva que não se preocupava com a genialidade do filho (não é o comum, porque os pais são responsáveis em parte por este distanciamento. Eles querem filhos gênios, às vezes, até sem querer). Queria que o menino vivesse uma vida comum, brincasse e fizesse coisas de criança. Crianças com estas habilidades se motivam pouco com brincadeiras infantis. Em parte também estimulados pelo ambiente.

DIÁRIO - São bons em todas as áreas?

DENISE - Não. Há desigualdade na balança. Ótimos para algumas coisas e zero para outras, como por exemplo, relacionamentos.

DIÁRIO - Quais são as áreas profissionais que essas pessoas mais escolhem?

DENISE - O que se destaca é a área de Exatas. Mas pode ser qualquer uma. Por exemplo, Garrincha era um gênio fisicamente no futebol, driblava como ninguém, mas a sociedade acaba valorizando os estudos acadêmicos.

DIÁRIO - As escolas precisam criar algum atendimento especial ?

DENISE - Não, muito pelo contrário. Isto os distanciaria mais das crianças. Quem tem estas facilidades vai sempre tê-las. O que a criança precisa é se ocupar com o que elas não têm. Isto é para todos os menores: oportunidade de utilizar todas as áreas da inteligência.

DIÁRIO - Qual é o maior inimigo de um garoto superdotado?

DENISE - Acho que os próprios pais que bitolam o filho naquilo. Talvez para compensar o que não tiveram, ou para, de alguma forma, se verem superiores a outras pessoas. Se ninguém falar para a criança que ela é superdotada, ela não vai se auto-definir assim. É preciso tomar cuidado para não atropelar o percurso natural de desenvolvimento do filho.

Fonte:http://www.dgabc.com.br/2010/News/5795015/adolescente-aprende-japones-sozinho.aspx